Fundador
GERARDO JOSÉ BATORÉU
Fundador dos Bombeiros Voluntários da Guarda · Comissário de Polícia · Jornalista · Homem de Bem
Dados Biográficos
Gerardo José Batoréu nasceu em 1844, em Alenquer, filho de José António Angelino Batoréu e de Mariana Carlota Assunção Batoréu. Fixou residência na cidade da Guarda, onde viria a deixar uma marca indelével na história local, destacando-se como empresário, jornalista, comissário de polícia, cidadão benemérito e, acima de tudo, como o fundador da “Companhia de Bombeiros Voluntários da Cidade da Guarda” e posteriormente na criação da “Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egytanienses”. Faleceu em 1920.
Fundação dos Bombeiros Voluntários da Guarda
Painel de azulejos comemorativo da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Egitanienses (1876–1951), onde figura o nome de Gerardo José Batoréu como “benemérito cidadão” e fundador, acompanhado dos nomes dos restantes cidadãos cofundadores. Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses, Guarda. Réplica do painel original instalado em 1951 no antigo quartel na Rua Alves Roçadas; A réplica encontra-se no novo quartel desde 5 de outubro de 2008 tendo sido oferta do Exmo. Sr. Dr. Álvaro José da Trindade Pereira Guerreiro e Família.
O seu feito mais marcante, generoso e duradouro foi a fundação da Companhia de Bombeiros Voluntários da Cidade da Guarda – um legado de civismo que ainda hoje perdura. Com a determinação e a visão de quem amava profundamente a sua cidade e os seus concidadãos, Gerardo José Batoréu teve a nobre iniciativa de, em 5 de agosto de 1876, abrir as portas da sua própria casa para aí reunir um grupo de distintos e valorosos cidadãos – pessoas de bem, genuinamente preocupadas com a cidade e com quem nela vivia. Com eloquência e ardor cívico, convocou-os para um objetivo claro e inadiável: formar uma companhia de bombeiros voluntários capaz de acorrer a qualquer incêndio que ameaçasse vidas e propriedades na cidade. Tal gesto revelava não apenas a sua generosidade e hospitalidade, mas sobretudo a grandeza de um homem que não esperava que outros agissem – ele próprio tomava a dianteira, com coragem e sentido de responsabilidade. A proposta, apresentada com entusiasmo e convicção, teve o mais caloroso acolhimento por parte de todos os presentes, que decidiram por unanimidade levar esta nobre causa por diante.
Após aprovação pelo Governador Civil, por Alvará n.º 26 de 7 de abril de 1877, foi realizada nova reunião de direção em 8 de julho de 1877, onde cessou funções a Direção Instaladora e iniciou os trabalhos a Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses. A 17 de junho de 1877, na Assembleia Geral dos sócios bombeiros voluntários efetivos, foram eleitos novos cargos diretivos e respetivos Chefes da Companhia de Bombeiros.
Batoréu esteve ligado à associação durante décadas: em 1898 exercia o cargo de Inspector, e perante instabilidade interna, assumiu interinamente o Comando em 1 de agosto de 1898. Na reunião de direção de 4 de abril de 1898 foram admitidos como sócios ativos Ezequiel Batoréu, António Mendes Bello e Salvador do Nascimento, que viria a ser um dos mais destacados Comandantes do Corpo de Bombeiros Voluntários da Guarda.
Comissário de Polícia Civil da Guarda
Em 1890 tomou posse como Comissário de Polícia Civil da Guarda, cargo que desempenhou com notável dedicação até ao seu falecimento. Desde o início demonstrou uma energia reformadora, remodelando serviços, disciplinando e intensificando a instrução aos praças. A sua atuação mereceu os mais rasgados elogios não só do Governo Civil mas também das instâncias superiores, incluindo louvor de Sua Majestade El-Rei.
Destacou-se pela sua habilidade especial na investigação criminal: capturou criminosos que se tinham refugiado em Espanha, coordenando-se com oficiais espanhóis residentes em Ciudad Rodrigo para entregar os indivíduos à justiça portuguesa. El-Rei reconheceu estes bons serviços e mandou-o louvar, propondo agraciá-lo com a Comenda da Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa – honraria que Batoréu recusou com nobreza, pedindo que a mesma fosse dada ao oficial espanhol com quem colaborou, indo pessoalmente entregar a medalha a esse oficial.
Em 13 de maio de 1900, por iniciativa de Sua Eminência o Cardeal Patriarca – que visitou a estação de caminho de ferro da Guarda -, a corporação de polícia foi elogiada e foi-lhe oferecida uma quantia a distribuir pelos guardas, como testemunho da satisfação pelos serviços prestados.
No domínio da administração pública, Gerardo José Batoréu liderou, em 1906, a modernização dos uniformes da polícia, e em 1902 conduziu energéticas medidas de saúde pública, cumprindo o Regulamento de Profilaxia contra a tuberculose. Ficou também celebrado o combate ao alcoolismo nas fileiras policiais, uma das suas causas pessoais.
Jornalista e Empresário
Paralelamente à sua ação cívica, Gerardo José Batoréu foi um empreendedor cultural de relevo. Fundou os jornais, Jornal do Povo (1878) e A Civilização (1882), tornando-se um dos principais veículos da imprensa regional que defendia os interesses da Guarda e da sua região.
Foi também proprietário da Tipografia Egitaniense e desempenhou funções de comissário da Guarda Cívica e governador civil interino.
Ação Social e Filantropia
Batoréu foi reconhecido como um protetor desvelado dos mais pobres e desfavorecidos. Foi um defensor da causa do Asilo de Infância Desvalida da Guarda, em cujo favor usava a sua influência junto da imprensa e da comunidade, chegando ao ponto de andar de sacola na mão a pedir contribuições para sustentar o estabelecimento.
Por iniciativa própria criou, à semelhança do que se fazia em Lisboa e Porto, a Caixa de Pensões para o pessoal da polícia, uma das suas iniciativas mais aplaudidas.
Memória e Legado
Na sessão do Asilo de Infância Desvalida de 11 de setembro de 1920, pouco após a sua morte, o seu nome foi evocado com sentidas palavras, descrevendo-o como “benemérito e honrado cidadão, que em tempos idos foi um protetor desvelado dos órfãos, prestando a este pio estabelecimento relevantíssimos serviços”. Foi aprovado por aclamação o envio de um extrato da sessão à sua ilustre família.
Gerardo José Batoréu foi, em suma, um homem que soube ser simultaneamente bom filho, esposo amantíssimo, pai estremecido, funcionário habilíssimo, prestante cidadão e protetor dos infelizes. O seu nome permanece associado à fundação dos Bombeiros Voluntários Egitanienses e ao serviço público da cidade da Guarda.
Cronologia
1844 Nascimento em Alenquer.
1876 Funda a Companhia de Bombeiros Voluntários da Cidade da Guarda (5 de agosto).
1877 Aprovação dos estatutos dos Bombeiros pelo Governador Civil.
1878 Funda o Jornal do Povo.
1882 Funda o jornal A Civilização.
1890 Toma posse como Comissário de Polícia Civil da Guarda.
1891 Louvado por El-Rei pelos serviços prestados na captura de criminosos.
1898 Exerce o cargo de Inspector dos Bombeiros; assume o Comando interinamente.
1900 Elogiado pelo Cardeal Patriarca por ocasião da sua visita à Guarda.
1906 Moderniza os uniformes da polícia da Guarda.
1920 Falecimento. Homenagem póstuma no Asilo de Infância Desvalida.
Fontes/Referências
· BORGES, Dulce Helena. A Guarda na época contemporânea (1820-2020). In SOUSA, Fernando de, coord., Guarda. Das origens à atualidade. Guarda; ed. Município da Guarda; Instituto Politécnico da Guarda; Cepese, 2024. Vol. 3, Parte III, Tomo I, p. 1125.
· CAMEIRA, José Martins. Monografia A da P.S.P. da Guarda, desde 1884 até 31 de Dezembro de 1939. Celorico da Beira: Tipografia Mondego, [1940?]. Documento não publicado. Arquivo da Polícia de Segurança Pública da Guarda.
· GUERREIRO, Álvaro. Apontamentos para a História dos Bombeiros Voluntários da Guarda e dos seus Quartéis-Sede. Guarda: Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses, 2003.
Texto elaborado para homenagem a Gerardo José Batoréu – 13/06/2026 – Subchefe – Hugo Teixeira
Apontamentos
No âmbito das Comemorações dos 150 Anos da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Egitanienses e do Corpo de Bombeiros Voluntários da Guarda, foi descerrada, no dia 13 de junho de 2026, uma placa evocativa em memória de Gerardo José Batoréu, fundador da Companhia de Bombeiros Voluntários da Guarda, instituição precursora da atual Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Egitanienses e Corpo de Bombeiros Voluntários da Guarda.
A cerimónia teve lugar junto a este edifício, então residência de Gerardo José Batoréu, onde, em 5 de agosto de 1876, se reuniu com um conjunto de distintos cidadãos da Guarda para dar início a um projeto coletivo de serviço à comunidade que perdura até aos nossos dias.
Associaram-se a este momento familiares do fundador, bombeiros, sócios, órgãos sociais, membros das Comissões de Honra, Executiva e Parceiros Oficiais das Comemorações, trabalhadores, representantes de entidades civis, militares, religiosas e judiciais, autarcas, instituições parceiras, órgãos de comunicação social e numerosos cidadãos, que se reuniram para prestar uma justa homenagem à visão, ao espírito de iniciativa e ao legado de um homem cuja ação marcou de forma indelével a história da cidade da Guarda e do voluntariado humanitário.
Ao assinalar este lugar de memória, ficou perpetuado o reconhecimento devido ao fundador de tão distinta obra e a todos aqueles que, inspirados pelo seu exemplo, contribuíram ao longo de gerações para a construção e afirmação desta instituição.
Foi aqui que tudo começou.
Foi aqui que nasceu, a 5 de agosto de 1876, a vontade coletiva de proteger, socorrer e servir.
E foi também aqui que, cento e cinquenta anos depois, a comunidade se voltou a reunir para honrar a memória de Gerardo José Batoréu, reafirmando que os valores que estiveram na origem desta missão continuam vivos e permanecem como referência para as gerações presentes e futuras.
Apontamentos para homenagem a Gerardo José Batoréu – 13/06/2026 – Presidente da AHBVE – Fábio Pinto